Repass
Canal01 de agosto de 20269 min de leitura

Último clique paga quem intercepta, não quem gera

Conversão altíssima e custo por venda baixo dizem mais sobre onde o parceiro está na jornada do que sobre a qualidade dele. O que o último clique compra, e como testar incrementalidade antes de escalar.

Por Samuel Ramos

Nesta página

Você abre o relatório do programa de parceiros no fechamento do mês e um nome salta da lista. A conversão dele está muito acima da média e o custo por venda é tão baixo que parece erro de soma. A reação natural é a mesma que eu teria: achei o canal, agora é replicar.

Antes de replicar, vale entender por que aquele número é tão bom. Em boa parte dos casos, ele diz mais sobre a posição do parceiro na jornada do que sobre a habilidade dele.

Quem estava no fim da jornada

Um parceiro pode fazer duas coisas muito diferentes pelo seu negócio. O relatório trata as duas com a mesma linha.

A primeira é gerar demanda. Alguém que não sabia que tinha o problema encontra um conteúdo, um vídeo, uma newsletter ou uma recomendação num grupo. Sai dali querendo comprar. Essa pessoa não estava no seu funil e passou a estar.

A segunda é colher demanda já formada. A pessoa já decidiu, já sabe o nome do seu produto e já o digitou no navegador. No último segundo antes de finalizar, ela faz um movimento que você provavelmente já fez como consumidor: abre uma aba nova e busca "nome do produto cupom". A primeira página dessa busca costuma pertencer a sites de cupom e cashback, que estão ali porque a consulta tem volume previsível e intenção altíssima. Ela clica, volta e compra.

O clique que a sua atribuição registra é o segundo. A comissão sai para quem estava no caminho, enquanto quem abriu o caminho fica fora do relatório.

flowchart LR
  A["Origem A: conteúdo de um parceiro<br/>que explicou o problema"] --> C["Busca pelo nome<br/>da sua marca"]
  B["Origem B: seu anúncio, seu e-mail,<br/>a indicação de um amigo"] --> C
  C --> D["Nova aba:<br/>'sua marca cupom'"]
  D --> E["Clique no site de cupom"]
  E --> F["Venda fechada"]
  F --> G["Comissão paga:<br/>site de cupom"]

Olhe o que o diagrama mostra: as duas origens custam e valem coisas diferentes, e terminam na mesma linha do relatório.

A conversão altíssima do parceiro do fim da fila é consequência aritmética disso: ele só recebe gente que já ia comprar. Conversão alta ali é um retrato da demanda que chegou pronta, e por isso diz pouco sobre a qualidade dele.

Nada disso faz de site de cupom um vilão. Cupom e cashback têm papel legítimo em vários negócios: reduzem abandono no checkout e ocupam um espaço de busca que alguém vai ocupar de todo jeito. Em alguns nichos, o próprio cashback é o motivo real da compra. O risco está em outro lugar: você compra geração de demanda, recebe colheita de demanda e paga o mesmo preço pelas duas.

Por que o número parece bom

O relatório não está errado. Ele está completo, consistente, e cada real atribuído tem um dono identificável. Nenhuma linha vermelha pisca na tela.

Falta uma coluna que nenhum painel de atribuição tem: "essa venda aconteceria sem esse parceiro?". Essa pergunta tem um nome: incrementalidade, a parte da receita que só existe porque o parceiro entrou na história. Se a venda aconteceria de qualquer jeito, ela não é incremental, e a comissão pagou por um registro de clique.

Atribuição e incrementalidade não se substituem. Atribuição resolve a questão operacional de quem recebe o crédito por uma venda. Incrementalidade resolve a questão econômica de qual receita existe por causa do programa. Nenhum painel responde a segunda sozinho.

E a média conspira contra você. Um parceiro com conversão muito alta e custo muito baixo puxa o custo por venda do programa inteiro para baixo, e o programa parece eficiente. Já os parceiros que geram demanda de verdade, com jornada longa e conversão modesta, parecem fracos na comparação. São eles os candidatos naturais ao corte no próximo ajuste.

Tudo isso nasce de uma decisão que quase ninguém discute: alguém escolheu o último clique. Ele é o mais simples de calcular, o mais fácil de explicar para o parceiro e o mais confortável de operar, porque sempre existe um responsável claro e uma comissão sem ambiguidade. Essa simplicidade tem preço: o modelo premia sistematicamente a proximidade do checkout.

Como medir incrementalidade hoje

Nenhuma das checagens abaixo exige ferramenta nova. Todas usam dados que você já tem.

1. Olhe a consulta que veio antes do clique

Para o parceiro campeão, tente reconstruir de onde a pessoa vinha antes do clique creditado. Se ele tem site, veja em quais buscas aparecem as páginas dele que mencionam a sua marca. Do seu lado, abra o console de busca do seu domínio e compare o volume de consultas com o nome da sua marca contra o de consultas sobre problema, categoria ou concorrente.

O critério é simples. Consulta que contém o nome da sua marca é intenção de marca: aquela pessoa já conhecia você antes de digitar. Quem entrega tráfego de intenção de marca está colhendo. Quem entrega tráfego de consulta de problema está gerando.

Muitos parceiros fazem as duas coisas, e por isso a checagem olha a proporção entre elas, parceiro por parceiro.

2. Meça o tempo entre o clique creditado e a compra

Você já tem o horário do clique e o horário da conversão. Calcule a distância entre os dois por parceiro e olhe a mediana em vez da média.

Compare com o ciclo de venda normal do seu negócio. Se o resto do funil leva dias entre descoberta e compra, e um parceiro específico tem mediana de poucos minutos, a decisão já estava tomada quando aquele clique aconteceu. Tempo curto entre clique e compra é a assinatura mais barata de interceptação nos seus dados.

3. Busque a sua própria marca

Abra uma janela anônima e busque o nome do seu produto. Depois busque o nome junto com "cupom", "desconto" e "vale a pena". Veja quem aparece na primeira página, e em que ordem.

Duas coisas costumam aparecer. Uma é uma página de cupom com códigos que você não reconhece, expirados ou não, capturando a busca de quem já era seu. A outra é anúncio pago no nome da sua própria marca, às vezes de um parceiro seu, ocupando o espaço acima do seu resultado orgânico.

Nesse segundo caso, você pode estar pagando comissão por um clique que aconteceria de graça, no seu próprio link, uma linha abaixo.

Registre o que encontrou sem tratar aquilo como má intenção: o que você tem ali é evidência de como uma campanha foi configurada, e essa diferença importa na conversa que vem depois.

4. Verifique se a venda já tinha dono

Se o seu rastreio guarda todos os cliques da jornada, e não apenas o que ganhou a comissão, você tem a checagem mais forte disponível hoje. Para as vendas creditadas ao parceiro campeão, conte quantas tinham um clique anterior de outro parceiro ou de um canal seu, dentro do prazo em que o seu programa ainda credita a venda. Essa proporção é a sua primeira estimativa honesta de quanta colheita você paga como geração.

Se o rastreio guarda só o último clique, dá para aproximar. Cruze o cliente convertido com a sua base: ele já era cadastrado, já tinha aberto um e-mail seu, já estava num trial, já havia visitado o site? Quem já estava na sua base e converteu por um clique de parceiro merece um segundo olhar.

Na mesma passada, faça o cruzamento mais desconfortável: os dados de quem comprou coincidem com o cadastro de algum parceiro? Mesmo e-mail, mesmo domínio corporativo, mesmo CPF ou CNPJ, mesmo endereço. Autorreferência, o parceiro comprando com o próprio código, aparece assim.

Aqui vale a regra de qualquer sinal isolado: a coincidência manda o caso para uma fila de revisão, com critério explícito e registrado, e espaço para o parceiro explicar.

O que fazer antes de escalar

Separe posição na jornada de qualidade do parceiro. Antes de mexer em comissão, quebre o relatório em dois grupos: quem traz gente que você não tinha e quem fecha gente que você já tinha. Os dois podem ser legítimos e valer o que custam. O que falha é avaliar os dois com a mesma taxa de conversão e o mesmo custo por venda, porque a métrica favorece um dos lados por construção.

Teste incrementalidade antes de escalar. O teste conceitual é sempre o mesmo: existe um pedaço do seu público que não é exposto àquele parceiro, e a receita total ali é diferente? Dá para chegar perto sem virar laboratório, pausando o parceiro num recorte geográfico ou num segmento, por um período definido, e comparando a receita total do recorte, nunca a receita atribuída. A atribuída sempre confirma o que você já achava, porque é ela que desaparece quando o parceiro sai.

Antes de rodar o teste, escreva o recorte, o período e o que faria você mudar de ideia, e desconfie de sazonalidade e de prazos curtos demais para o seu ciclo de venda.

Trate janela e modelo como decisões separadas. Alguém clica hoje e compra três semanas depois. Quem decide se essa venda ainda conta para o parceiro é a janela de atribuição, e quem decide quanto ele leva é o modelo. Mexer só na janela muda quantas vendas entram na conta; mexer no modelo muda quem recebe pelas mesmas vendas.

ModeloQuem recebeQue comportamento isso premiaO que fica invisível
Último cliqueQuem estava no caminho na hora da compraPosicionar-se perto do checkout e na busca de marcaTodo mundo que abriu a conversa
Primeiro toqueQuem trouxe a pessoa da primeira vezDescoberta, conteúdo, alcance novoQuem tirou a objeção final e fechou
Multi-toqueVários parceiros, com crédito repartidoContribuir em qualquer ponto da jornadaNada, em teoria; na prática, clareza

Multi-toque reparte a comissão entre todos os parceiros que apareceram na jornada, e é ao mesmo tempo o mais fiel à realidade e o mais difícil de explicar. Isso pesa mais do que parece: se o parceiro não entende como o ganho dele é calculado, ele não consegue otimizar para aquilo, e a regra para de funcionar como incentivo. Regra de comissão que ninguém reproduz de cabeça vira loteria, e contestar loteria desgasta os dois lados.

Escreva a política de termo de marca. Decida se parceiro pode anunciar no nome da sua marca, em quais variações e formatos, e comunique isso antes de precisar cobrar. A razão é aritmética de canal: aquele clique já era seu.

Não corte por reflexo. Tirar um parceiro do fim da jornada pode entregar aquele espaço de busca para quem vende o concorrente, e aí a pessoa que já era sua vai embora acompanhada. A conclusão de uma checagem de incrementalidade raramente é "desligue". Costuma ser "pague diferente", "restrinja o método de promoção" ou "aceite esse custo como custo de fechamento".

Guarde todos os cliques da jornada, mesmo quando a regra paga só um deles, porque sem esse histórico a incrementalidade não tem como ser medida depois.

Último clique não é um erro de medição. É uma resposta simples para uma pergunta difícil, e ela acerta quem estava presente no fim. A pergunta que decide o seu orçamento é outra: quem fez a venda existir.

Enquanto as duas respostas coincidem, escalar o campeão do relatório funciona. Quando elas se separam, o relatório continua bonito e o crescimento para de aparecer no total. Descobrir em qual dos dois você está custa umas horas de planilha e uma janela anônima.

Continue lendo